We are Stories – Eli

Diálogos

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: ela estava há muito tempo olhando para um ponto fixo e parecia preocupada.

Ao me ver aproximando…
– Água de coco?
– Não, obrigada. Vim ver se está tudo bem com você… Está com uma cara de preocupada!
Ela abre um sorriso enorme.
– Não, menina. Está tudo bem, graças a Deus! Estou com frio só, mas já vou colocar meu casaco.
– Estou com frio também.
– Mas não chovendo está ótimo! Ontem foi bom. Amanhã é minha folga.
– E o que você costuma fazer?
– Trabalhar, né? Mulher nunca para de trabalhar. Cuido da casa, do marido, filhos, netos…
– Netos??? – ela tinha uma pele muito bonita, parecia jovem e me chocou.
– Vários. De 1, 2… todas as idades.
– Que lindo!
– É, minha família é grande. Lotamos o casamendo do meu sobrinho no sábado, foi bonito de ver. Mas fui pra ver a noiva. Que maravilhosa!
– E foi boa a festa então?
– Alguns chegaram em casa às 3 de manhã. Eu fui embora à meia-noite. Jantei lá… teve churrasco… arroz… salada… farinha…
– Fiquei até com fome agora!
É… a vida é boa!
– É, sim. E se você está bem, vou embora tranquila.
– Vá, sim. Mas volte pra gente conversar mais!
– Com certeza! Bom dia pra você.
– Bom dia e vai com Deus!

Eli, vendedora de água de coco no Parque Ibirapuera, uma das peles mais incríveis que já vi e um sorriso que equivale a um abraço.

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We are Stories – Celina

Diálogos

Quem conta: julianacasemiro e andressagenovesi
Conta mais: questionamos nos aproximar porque ela tinha cara de brava.

Seu rosto era bem marcado pelo tempo e os cabelos eram brancos. Estava sentada com uma manta cobrindo as pernas em uma calçada da Avenida Paulista. A expressão era bem negativa, mas a gente tentou:
– Oi, a senhora aceita uma água?
– Claro que aceito, lindinha, muito obrigada!
E surgiu um sorriso bem além das nossas expectativas. Dentes muito bonitos e olhos verdes.
Sentamos para conversar e saber o que ela tinha para contar. Mal sabíamos que tínhamos ao nosso lado um baú de recordações tão especiais.

Ela tem 79 anos e é do interior de Minas Gerais. Mudou para São Paulo quando casou e não saiu mais, mesmo depois de ficar viúva cedo.
– Tenho 3 filhos, mas moram longe. Estou bem aqui. Visito sempre que posso.
E ela se apresentou muito feliz o tempo todo. Seus conselhos vinham como uma avalanche:
– Sejam as melhores amigas de suas mães. Confiança é tudo. Temos que ser obedientes. É muito ruim quando não confiam na gente.
Dentre alguns episódios muito bons que viveu, ela contou que tinha uma dupla sertaneja com o irmão e foram exclusividade de uma rádio grande. Em São Paulo, trabalhou anos como Diretora Executiva de um importante órgão do Governo.

– Sou muito feliz. Sou rica. Nunca tive um problema de saúde, quase não fico gripada. Me aceito como sou e me sinto muito querida. Tenho muitos amigos. Minha riqueza é essa: amo viver.
– Como é bom ouvir isso nos dias de hoje!
– Nos dias de hoje, não. Nos dias de sempre. Temos que nos amar. Eu me amo muito e amo a vida. Não sinto a idade que tenho. Quem é velho, já morreu. Quem não vive, morre novo.

E, durante a 1 hora e meia que conversamos, não veio nenhum comentário negativo sobre nada. Nada mesmo. Muitas pessoas passaram por ela desejando “boa tarde”, às vezes deixavam moedas e três pararam para dar um beijo e um abraço.

Celina, o nome que escolhemos chamá-la, disse que ama cuidar de crianças e têm muitos netos de coração. Depois daquela tarde, ela ganhou mais duas. ;)