No Domingo de Páscoa

Quem conta: vou chamá-la de Duda.
Conta mais: eu não conheci a minha pessoa temporária.

Era Páscoa, aquela época em que todos os sentimentos estão mais aflorados, assim como Natal, Ano Novo, Dia das Mães e por aí vai…

Eu estava namorando há 4 meses e resolvemos viajar com meus primos para uma cidade no interior do Rio de Janeiro. Meu namorado morava fora e o reencontro foi esquisito. O feriado não foi o melhor dos mundos. No último dia, quando estávamos indo para o aeroporto, mal nos olhamos. Eu já sabia que seria o fim, só não esperava que fosse assim.

O aeroporto estava um caos, os voos atrasados e nós sentamos para conversar. Não teve jeito: ali mesmo resolvemos que não daria mais certo. Eu estava voltando para São Paulo e ele indo para os Estados Unidos. Ele andou para um lado e eu para o outro. E foi quando veio o nó na garganta, a vontade de chorar.

Parecia que tudo estava dando errado! Fiquei esperando no check-in alguma posição sobre o meu voo, até que uma senhora com um ovo de Páscoa me cutucou e disse:
– Querida, meu filho está ali te vendo chorar e disse que uma moça tão bonita não pode chorar assim. Sei que você não deve estar muito bem, mas espero que isso te faça sorrir.

Na hora, nem olhei para procurar o filho da senhora, nem quis saber porque ele estava fazendo aquilo. Quando ela me deu o ovo, só consegui sorrir e agradecer.
Foi tão lindo o gesto dele – que nem sei exatamente se é um menino, um rapaz, um homem. Só sei que ele faz parte de um momento da minha vida que eu nunca esqueci.

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We are Stories – Reinaldo

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: todos olhavam pra ele, que não tirava os olhos do papel e caneta que segurava.

Comecei:
– Oi, tudo bem? Fiquei curiosa, o que você está fazendo?
– Cruzadinhas!
– Que legal! Você faz sempre?
– Ah, faço… há muitos anos… é bom para aliviar a mente.
– É mesmo. E vem sempre aqui no parque fazer?
– Se eu tenho material, eu venho. Me ajuda muito.
– Bom saber! Boa sorte então nessa. E bom dia pro senhor.
Bom dia e tudo de bom!

Reinaldo tinha os pés cansados em um par de chinelos velhos. Deve ter uns 70 e poucos. Tinha poucos dentes no grande sorriso que abria ao falar e estava tão ansioso pra continuar nas cruzadinhas que eu achei melhor encurtar o papo! : )

A Montanha

Quem conta: analeitão & bernardocaron
Conta mais: estávamos na China desolados por uma sequência de eventos difíceis.

Não sabemos contar quantas vezes ouvimos chineses oferecendo ajuda durante as duas primeiras semanas na China. No começo é ótimo, até você descobrir que não é.

Tínhamos acabado de chegar na cidade de Wulingyuan. Deixamos nossas coisas no hotel e saímos pela cidade em busca de um restaurante. Optamos por entrar em um clássico chinês “hot pot”. A garçonete foi super solícita e, provavelmente, deve ter nos explicado os pratos. Como a gente não entende mandarim, achamos que o caminho mais fácil era apontar em um painel de fotos qual era a nossa escolha: algo que poderia ser carne de vaca ou de porco. A moça balançou a cabeça, anotou algo e foi para a cozinha.

Logo chegou o prato, mas com elementos que destoavam da foto. Mentira, não tinha nada a ver com o que pedimos mesmo. Em um espírito aventureiro achamos que valia tentar desbravar aquilo e foi quando veio a surpresa: surgiu um pé de galinha cozido no meio. Nojo ou desespero? Os dois. A verdade é que ao pinçar uma cabeça de galinha, confirmamos que não era o nosso pedido e a briga começou: o Bernardo traduzia pelo celular e a chinesa retrucava em mandarim. A discussão teve suas variáveis: galinha versus faisão, erro versus má fé, com ou sem pimentão etc. Esse último dilema deu que trouxeram da cozinha um pimentão cru. Trocar o pedido, nem pensar. Nitidamente, era o prato mais caro do local. Depois de um difícil diálogo, deixamos parte do dinheiro que exigiam em cima da mesa e saímos andando, com fome.

Passamos num mercadinho e fomos pro hotel porque o dia seguinte seria longo! Logo cedo, pegamos um taxi até o portão do Parque Florestal Nacional de Zhangjiajie. O taxista ignorou o pedido do Bernardo de seguir com o protocolo do taxímetro e, espertão, cobrou 4 vezes o valor real. Que não foi pago dessa vez.

A manhã foi intensa, as trilhas estavam abarrotadas de turistas chineses com educação “diferenciada” e eram milhares de degraus para todos os lados, com ofertas de tudo: mapas, ajuda ou até de ser carregado pelas trilhas. Exaustos, preferimos seguir para outra parte do parque pela tarde, com passeio de barco, templos e cachoeiras. Esse era o plano, se não tivéssemos comprado um ticket bem caro, acreditando que valeria para todos os pedaços do parque. Comprar outro ticket caro estava fora de questão, então nos entregamos à guia desolados e exaustos pela sequência de eventos. Enfiamos a cara no mapa procurando alguma saída, algum sinal.

– Posso ajudar?
Era mais um chinês. Desviamos o olhar, mas ele insistiu.
– Vocês estão perdidos?
Sentou ao nosso lado e adentrou no nosso mapa. Explicamos sucintamente que não esperávamos mais tormentas. Ele nos contou que estava viajando há mais de 4000km de moto com um amigo pela China. Muito calmo e zen nos sugeriu que insistíssemos nesse passeio, mesmo sendo caro. Quase indo embora, voltou e pediu uma foto com a gente – o que é comum por lá. Agradeceu e se despediu, reafirmando que não nos arrependeríamos de entrar no parque. Subiu em sua moto e partiu. E nós resolvemos dar uma chance…

Fomos recebidos por mais uma escadaria que rasgava uma rocha gigantesca. Cruzamos com um único turista chinês e só então percebemos que estávamos sozinhos na China, pela primeira vez. Enquanto subíamos, o céu começou a crescer com um incrível e acalentador por do sol. Ao nos aproximarmos do fim da floresta, ascendeu uma grande montanha à nossa frente, ao lado de uma imensa cachoeira. Saímos do parque com o último fiapo de luz do sol e uma das melhores experiências dessa vida.

Não podíamos evitar de lembrar do motoqueiro viajante que insistiu na nossa visita.
Ele mudou a nossa viagem e a China mudou com ele também.
Xièxie (obrigado)!

O Gerente

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: eu estava triste a achei que um bom jantar mudaria meu dia.

Londres, maio de 2003.
Quando eu fui morar em Londres, passei a frequentar um shopping perto da minha casa porque lá ficava a H&M o supermercado. No segundo andar tinha um Yo! Sushi – um restaurante japonês muito diferente dos que eu já tinha visto: os pratos vinham em uma esteira e eu tinha no balcão tudo o que precisava (hashi, água, wasabi etc.). Óbvio que eu ía amar! Tirando o preço, que era um pouco salgado.

Vamos combinar que nessa época minha rede social era o ICQ, minha câmera era de filme e não tinha sido lançado o iPod ainda! Então aquilo era novidade mesmo e, logo de cara, babei pelo restaurante.

O destino foi gentil e me arranjou um emprego nesse shopping, quando nasceu a regra “se eu acho que mereço, vou jantar no Yo!”.

O gerente era um italiano alto, magrinho e muito querido. Não teve um dia em que passei por lá que ele não disse “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite” com um sorriso sincero.

Nunca me esqueço da vez que eu joguei a tristeza e o cansaço do trabalho naquele balcão e comi como se não houvesse amanhã, sem sequer sofrer porque ía gastar além da conta. O gerente notou que eu estava diferente e perguntou do meu dia. Desabafei e contei que não estava bem.

Ele começou me confortando, até que descobriu que eu trabalhava no shopping e ficou louco! Me disse que eu tinha desconto de staff e poderia ter usado nas inúmeras vezes que fui lá.

Justo naquele dia difícil, pedi a conta já mais animadinha porque viria com descontro. Até que o gerente chegou com seu inglês super italiano:
– Hoje é por conta da casa!
– Não brinca! Eu aceito o desconto de staff e já fico feliz.
– Dááárling, aceita, é pra você! Meu presente, você merece.

Meu olho encheu de lágrimas e eu aceitei.
Ele ficou mais feliz do que eu no final.

O Comissário

Quem conta: rafaelgarcia
Conta mais: pequenos detalhes mudam tudo.

Tenho 1,87m de altura e voar nunca é muito confortável. Estava indo de Dublin pra Hamburgo e seriam poucas horas de voo.

Assim que entrei no avião, o comissário de bordo me abordou, pediu pra ver minha passagem e disse na hora:
– Se o senhor preferir, pode sentar na saída de emergência. Tem mais espaço e está vazia.

Fiquei tão feliz e surpreso com a atitude, ainda mais de uma companhia aérea pequena.
Realmente, pensar nos outros faz diferença!