O Goleiro

Quem conta: marianamoura
Conta mais: algumas ajudas realizam sonhos.

Meu namorado joga futebol com os amigos em uma quadra perto da Rodoviária do Tietê. Um dia, havia um rapaz assistindo e os meninos o chamaram pra jogar junto. Ele disse que era goleiro.

Depois do jogo, foram todos tomar uma cerveja, inclusive ele. No bar, ele contou a sua história: é goleiro profissional, veio do Ceará e estava em São Paulo a caminho do Sul para um teste em um grande clube. Ao chegar na Rodoviária com mais 4 jogadores, descobriu que o agente pegou o dinheiro de todos e fugiu. Três rapazes conseguiram a passagem para o Sul, um voltou para o Ceará, mas ele quis ficar para correr atrás do seu sonho.

Voltou a falar com a Polícia e conseguiu ligar para o grande clube – teriam seletivas na segunda-feira.
Ele queria vender o que tinha na mala para conseguir dinheiro para se alimentar e ir. Meu namorado e os amigos nem pensaram duas vezes: juntaram o que puderam para comprar a passagem e ajudar com o resto.

Ele pegou o telefone de todos e prometeu que daria seu melhor nas seletivas para conseguir a vaga e pagá-los de volta.

We are Stories – Celina

Quem conta: julianacasemiro e andressagenovesi
Conta mais: questionamos nos aproximar porque ela tinha cara de brava.

Seu rosto era bem marcado pelo tempo e os cabelos eram brancos. Estava sentada com uma manta cobrindo as pernas em uma calçada da Avenida Paulista. A expressão era bem negativa, mas a gente tentou:
– Oi, a senhora aceita uma água?
– Claro que aceito, lindinha, muito obrigada!
E surgiu um sorriso bem além das nossas expectativas. Dentes muito bonitos e olhos verdes.
Sentamos para conversar e saber o que ela tinha para contar. Mal sabíamos que tínhamos ao nosso lado um baú de recordações tão especiais.

Ela tem 79 anos e é do interior de Minas Gerais. Mudou para São Paulo quando casou e não saiu mais, mesmo depois de ficar viúva cedo.
– Tenho 3 filhos, mas moram longe. Estou bem aqui. Visito sempre que posso.
E ela se apresentou muito feliz o tempo todo. Seus conselhos vinham como uma avalanche:
– Sejam as melhores amigas de suas mães. Confiança é tudo. Temos que ser obedientes. É muito ruim quando não confiam na gente.
Dentre alguns episódios muito bons que viveu, ela contou que tinha uma dupla sertaneja com o irmão e foram exclusividade de uma rádio grande. Em São Paulo, trabalhou anos como Diretora Executiva de um importante órgão do Governo.

– Sou muito feliz. Sou rica. Nunca tive um problema de saúde, quase não fico gripada. Me aceito como sou e me sinto muito querida. Tenho muitos amigos. Minha riqueza é essa: amo viver.
– Como é bom ouvir isso nos dias de hoje!
– Nos dias de hoje, não. Nos dias de sempre. Temos que nos amar. Eu me amo muito e amo a vida. Não sinto a idade que tenho. Quem é velho, já morreu. Quem não vive, morre novo.

E, durante a 1 hora e meia que conversamos, não veio nenhum comentário negativo sobre nada. Nada mesmo. Muitas pessoas passaram por ela desejando “boa tarde”, às vezes deixavam moedas e três pararam para dar um beijo e um abraço.

Celina, o nome que escolhemos chamá-la, disse que ama cuidar de crianças e têm muitos netos de coração. Depois daquela tarde, ela ganhou mais duas. ;)

No metrô

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: no metrô de São Paulo, voltando do trabalho para casa no fim da sexta-feira.

Estava sozinha e exausta. Até que chegou uma senhora de uns 50 anos e sentou ao meu lado. Não demorou um minuto para ela puxar assunto:
– Nossa, que semana cansativa! Demorou pra passar pra você também?
– Muito! São Paulo tem o dom de sugar a energia das pessoas.
– Nem fale! Pena que nem sempre é só a cidade, né. Há pessoas que sugam a energia dos outros também. Aliás, são demais por aí!
– Hahaha, nem fale!
– É por isso que eu amo meu cachorro mais que tudo nessa vida!
– Não tem companhia melhor que de animalzinho mesmo.
– Olha, eu passei um Reveillon fora de casa e tive que deixar meu cachorrinho num hotel. Quase morri com a carência que ele estava quando eu voltei. Agora, fim de ano é em casa! Até meus amigos aderiram!
– Te entendo bem! No meu caso é um gato, que mora longe, e eu faço de tudo pra ir todo fim de semana encontrar com ele. Não tem amor igual! Ainda não sou mãe, mas acho que só repito essa sensação o dia que tiver um filho.
– Não mesmo! Mas vou te falar uma verdade: eu sou mãe e amo muito meus filhos, mas cada um tem sua vida! Animalzinho vive pra você e é grato por isso. Te ama mesmo quando você chega em casa cansada, triste, sem dinheiro. E não sai do seu lado quando sente isso!
– Eles são muito sensíveis…
– …mais sensíveis que pessoas, às vezes!
– É, é verdade.
Sorrisos e silêncio.
– Bom, chegou minha vez. Preciso ir.
– Então vá e abrace muito o seu gatinho, viu? Seja feliz. Foi MUITO bom falar com você hoje!
– O prazer foi todo meu!
– Vá com Deus! Seja feliz!
– Obrigada, você também!

No ar: a primeira história!

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: eu não sabia que esse dia daria uma boa história.

A primeira história é a primeira história que mudou a minha vida. Aconteceu no dia 04 de abril de 2003, quando fui morar em Londres. Era a primeira vez em muitas coisas: sair de casa, ir para bem longe e voar sozinha também. Como muitas mortais que eu conheço, sempre sonhei em sentar ao lado do bonitão do avião, um cara incrível que iria mudar a minha viagem. Mas, né, eu tinha 18 anos recém-completos e não tinha milhas o suficiente para entender que isso não acontece. Não comigo.
Ao meu lado, sentou um cara baixinho e magro, 30 e poucos, cara de ranzinza, nem me olhou. Tudo bem, eu não queria que ele me visse chorando. Eu estava bem, mas não queria falar que naquele dia eu acordei querendo desistir de tudo.

O avião subiu e comecei a ler uma revista de Londres. Em seguida, ele começou os trabalhos:
– Você está indo pra Londres mesmo?
– Estou e você?
– Também, mas moro em Birmingham. Está indo passear?
– Não, vou ficar um tempo.
E, sem sequer saber o meu nome, ele falou:
– Eu sinto que vai dar tudo certo! Você tem namorado?
– Não…
– Em Londres você vai arrumar.
Dei risada.

Depois de um tempo ele perguntou se eu tinha um mapa.
– Me dá isso daí que vou marcar um monte de lugar pra você conhecer! Você vai amar Londres!
Nessa hora, ele sorriu, eu sorri e o mapa começou a ficar poluído de tanta anotação. Eu adorei, não tinha referência alguma.

O diálogo foi bom. Jarson, enfermeiro, de algum lugar do nordeste que não consigo lembrar. Fez o curso de Enfermagem na Inglaterra e por lá ficou. Foi a primeira pessoa que me ensinou como a profissão é valorizada no “primeiro mundo” e que vale a pena fazer a vida do lado de lá. Estava visitando a mãe no Brasil e aproveitou para trazer um amigo médico gringo (que estava a bordo também) para conhecer a terrinha.

Gostei muito que ele perguntou a minha história. Eu era, nitidamente, uma criança e mesmo assim (ou, talvez, por isso) ele me deu uma atenção especial. Sem nunca parar de falar de Londres, claro. Depois do jantar, ele me perguntou se eu estava com sono. Era óbvio que não! Eu queria era chegar logo nessa cidade aí.

Eis que ele levanta e pega uma caixa enorme no compartimento de bagagem.
– Você joga Xadrez?
– Não, só Damas.
– Ótimo, eu também adoro.
Ele abriu a caixa e era um tabuleiro com pedras brasileiras maravilhoso. Nunca vou esquecer como era lindo. E estreamos o brinquedo ali. Ganhei a primeira, perdi a segunda e a melhor de três. Odiei (hahaha), mas ele era espirituoso e manteve o clima legal.

Bateu um sono e acordamos no café da manhã. Um sorriu pro outro cansado e ficou por isso. Ele me deixou o telefone dele se eu precisasse de alguma ajuda. Desembarcamos, encontramos o amigo dele e ele ofereceu de seguir comigo, caso eu precisasse de algo. Infelizmente, nos perdemos antes da Imigração.

Eu nunca liguei, tive vergonha. O mapa me ajudou muito, conheci Londres inteira em uma semana.
Ele não sabe, mas me apresentou um dos grandes amores da minha vida!