A Menina e a Foto

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Quem conta: evelinnedourado
Conta mais: a gentileza deixa mais bonito o nosso lado mais importante – o de dentro.

Sentei na última fila do auditório pra poder ter uma visão mais ampla da plateia. Câmera na mão, minha preocupação, no momento, era tirar uma boa foto e fazer o melhor take para retratar a importância que aquele projeto tem para o meu município, no interior da Bahia, ultimamente tão sofrido com as drogas e violência.

Ela estava sentada, sozinha, na penúltima fila. Quando sentei, ela olhou pra mim, levantou-se e ficou em pé, ao meu lado. Depois que fiz algumas fotos, ela voltou ao seu lugar e, educadamente, abriu um sorriso e perguntou:
– Moça, posso sentar? Ainda estou na sua frente?

Sorri de volta e respondi que não, de maneira alguma.

Ela, então, voltou a prestar atenção na palestra. Foi aí que consegui tirar a foto e registrar a imagem que queria tanto fazer: a dela na plateia.

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O Primo

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Quem conta: rosi
Conta mais: sobre nunca esquecer o que nos amam de volta.

Viajei e revi meus familiares, incluindo um primo que, de imediato, me conectei e nossa sintonia estremeceu.

Vivemos um romance um tanto proibido, o mais inesquecível de toda minha vida. Retornei de viagem e a saudade foi tamanha e recíproca. Logo veio a decisão sobre como manter isso, e se valia a pena acreditarmos que daria certo, mesmo à distância.

A resposta de tantas perguntas não dependia só do nosso querer, mas também da aprovação da família. Para alguns foi algo irrelevante, para outros pareceu absurdo. Sendo assim, a opinião de uma única pessoa poderia ser a mais firme de todas: a da mãe dele, minha tia.

Eu e ele acreditamos que, pra algo dar certo, os pais devem aprovar e liberar. Logo eu e ele passando por isso, nem adolescentes somos mais, mas a importância da palavra da mãe é tão importante quanto a de Deus nesse cenário.

Enfim, essa história não foi escrita pra ter um final feliz como imaginamos, mas sim um aprendizado pra cada um. Talvez a obediência seja bem mais valiosa que todos os sentimentos nutridos dentro de nós.

O Guri do Caixa

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Quem conta: miriambuss
Conta mais: palavras gentis têm eco.

Estava correndo, tinha uma entrevista de emprego e o horário estava bem apertado. Entrei em um estabelecimento pra imprimir um currículo e comprar um envelope. Fiz tudo com pressa.

Na hora de sair, agradeci e me despedi. O guri do caixa me disse:
– Tchau! Tenha um bom dia! E boa sorte!

Parei na hora na porta, olhei pra trás e sorri de volta. Jamais imaginei que ele tivesse percebido. Achei fantástico aquilo! É bom quando alguém que nem nos conhece presta atenção na gente e nos deseja coisas boas.

San e Os Pratos

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Quem conta: camilacasemiro
Conta mais: gratidão é um momento simples que vira memória pra sempre.

Conheci a San num grupo do Facebook que me colocaram. Era fechado para mulheres, onde quem quisesse poderia oferecer serviços, produtos, artesanato etc. Vi um post de uma menina oferecendo faxina, porque precisava comprar um tênis esportivo para conseguir emagrecer.

Nessa mesma época, eu tinha feito uma limpeza nos armários e separado alguns sapatos para doar. Perguntei que número ela calçava e era o mesmo que o meu. Na hora, puxei a conversa para o chat privado e perguntei se ela tinha interesse nos meus sapatos – ela disse que sim. Não tinha tênis, mas tinham outras coisas e ele veio pessoalmente buscar.

Ela morava muito longe, então dei uma carona de volta. Falei que, quando eu precisasse de alguém para ajudar em casa, ligaria para ela. Ela é bem jovem e veio do Nordeste com o namorado e o filho. Eles moram nos fundos da casa da mãe dela e têm muito pouco.

O tempo passou e precisei de ajuda em casa, então ela foi fazer uma faxina e foi ótimo.

Ontem, comprei meu primeiro jogo de pratos. Eu sempre quis ter um jogo bonito e seguia com pratos herdados da casa da minha mãe. Eles têm aproximadamente 28 anos na nossa família e seguem em boas condições. Lembrei da San, porque estava cheia de roupas em casa para doar, e escrevi perguntando se ela aceitava.

Pedi um Uber e mandei tudo que tinha – inclusive, o jogo de pratos da família. Ao receber, ela mandou um recado emocionada dizendo que nunca teve pratos na vida e que ela e a família se alimentavam em potes de margarina.

Isso mexeu muito comigo e liguei na hora para a minha mãe para contar. Tem gente com tanto e gente com tão pouco. A gente que tem um pouco a mais, às vezes esquece o tanto que pode doar e ajudar. Terminei meu domingo muito grata pela faxina que fiz. Por essa reciclagem física e emocional. Na minha casa e na minha vida.

O mais valioso é saber que vou proporcionar novos momentos para essa família ao redor de uma mesa. Pois, agora, eles finalmente podem se alimentar em pratos.

No Ponto de Ônibus

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Quem conta: tamaradesá
Conta mais: daqueles encontros que fazem refletir uma vida toda.

Depois de quase morrer do coração com um cachorro atropelado, eu preciso contar sobre uma pessoa de luz que conheci anteriormente. Estava no ponto de ônibus próximo à UFSB, como faço todo santo dia após o estágio. Chegou um senhor, encostou sua bicicleta com algumas sacolas no guidão e pediu licença para sentar no mesmo banco que eu, pois precisava descansar.

Ele começou a contar que estava levando comida para um garoto em Ferradas que ele adotou como afilhado. Disse que havia ligado pela manhã e perguntado se ele tinha tomado café. A resposta foi “não”. Perguntou se tinha jantado no dia anterior, a resposta foi “não”. Então, ele juntou o que podia, comprou algumas coisas e estava levando para a criança se alimentar.

Junto com o menino, mora sua mãe desempregada, seu pai que faz bicos (e ainda não tinha recebido nada esse mês) e outras 5 crianças, entre primos e irmãos. O senhor ajuda também outra família de situação similar. Ajuda uma cumadi inválida. E cria um garoto de 13 anos de idade.

Tudo isso ele faz com o que ganha por ser aposentado. Sendo que há dois anos ele sofreu um câncer e, desde então, não consegue mais arrumar emprego. Ele ainda disse que o que mais dói o coração dele é ver alguém passando fome. E que dessa vida a gente não leva nada, por isso tem que ajudar quem precisa. Depois se despediu:
– É, minha fia, agora que descansei, vou seguir meu caminho.

Só consegui me despedir falando de todo coração:
– Vai com Deus, Deus abençoe o senhor.

Nem me lembrei de perguntar o nome dele, mas agradeço a Deus por esse encontro. E queria compartilhar com quem quisesse ler. Pra quê tudo isso? A conclusão fica por conta própria, porque eu já escrevi demais.