As Senhoras Sírias

Quem conta: loutrajano
Conta mais: quando uma porta se fecha, um universo inteiro se abre.

Conheci duas senhoras da Síria a caminho do trabalho. Estava correndo pra fazer a baldeação na Estação da Sé e tomei um baita susto quando alguém agarrou o meu braço com força. Estou sempre com pressa, mal reparo no que está acontecendo ao redor.

A senhora perguntou se eu poderia ajudar ela e a amiga, porque nenhuma falava português direito. O destino final era a Bresser-Mooca. Tentei explicar o percurso até o outro lado da estação, onde sai o trem, mas no fim das contas as acompanhei até lá.

Perguntei de onde eram, ao que a de hijab preto respondeu “Síria”, “guerra” e “triste”, em português mesmo. Ela era professora de música lá e perdeu tudo. Acharam melhor fugir pra cá. Pelo que entendi, iam até próximo do Brás procurar emprego. Disse que sentia muito, que o Brasil ultimamente não estava nos seus melhores tempos, mas que esperava mesmo que elas encontrassem paz aqui, de alguma forma.

Nos despedimos porque o trem já estava na plataforma. Ganhei beijinhos nas suas bochechas, abraços calorosos meio desajeitados e uma palavra na língua nativa delas que não entendi direito, mas que sorri com retribuição.

Eu, que tanto amo fotografar tudo, fiquei com vergonha de pedir uma foto delas. Não perguntei nome, nem peguei telefone. Estou arrependida até agora. Um nó enorme no peito porque o mundo todo está doente. Hoje, eu só desejo força pras tantas pessoas que perderam tudo e que precisam largar toda uma vida pra trás pra sobreviver, sobretudo essas mulheres guerreiras que tanto sofrem.

Torcendo pras minhas duas amigas ficarem bem e aprenderem outras palavras felizes do português, além de “guerra” e “triste”.

A Menina e a Foto

Quem conta: evelinnedourado
Conta mais: a gentileza deixa mais bonito o nosso lado mais importante – o de dentro.

Sentei na última fila do auditório pra poder ter uma visão mais ampla da plateia. Câmera na mão, minha preocupação, no momento, era tirar uma boa foto e fazer o melhor take para retratar a importância que aquele projeto tem para o meu município, no interior da Bahia, ultimamente tão sofrido com as drogas e violência.

Ela estava sentada, sozinha, na penúltima fila. Quando sentei, ela olhou pra mim, levantou-se e ficou em pé, ao meu lado. Depois que fiz algumas fotos, ela voltou ao seu lugar e, educadamente, abriu um sorriso e perguntou:
– Moça, posso sentar? Ainda estou na sua frente?

Sorri de volta e respondi que não, de maneira alguma.

Ela, então, voltou a prestar atenção na palestra. Foi aí que consegui tirar a foto e registrar a imagem que queria tanto fazer: a dela na plateia.

O Primo

Quem conta: rosi
Conta mais: sobre nunca esquecer o que nos amam de volta.

Viajei e revi meus familiares, incluindo um primo que, de imediato, me conectei e nossa sintonia estremeceu.

Vivemos um romance um tanto proibido, o mais inesquecível de toda minha vida. Retornei de viagem e a saudade foi tamanha e recíproca. Logo veio a decisão sobre como manter isso, e se valia a pena acreditarmos que daria certo, mesmo à distância.

A resposta de tantas perguntas não dependia só do nosso querer, mas também da aprovação da família. Para alguns foi algo irrelevante, para outros pareceu absurdo. Sendo assim, a opinião de uma única pessoa poderia ser a mais firme de todas: a da mãe dele, minha tia.

Eu e ele acreditamos que, pra algo dar certo, os pais devem aprovar e liberar. Logo eu e ele passando por isso, nem adolescentes somos mais, mas a importância da palavra da mãe é tão importante quanto a de Deus nesse cenário.

Enfim, essa história não foi escrita pra ter um final feliz como imaginamos, mas sim um aprendizado pra cada um. Talvez a obediência seja bem mais valiosa que todos os sentimentos nutridos dentro de nós.

O Guri do Caixa

Quem conta: miriambuss
Conta mais: palavras gentis têm eco.

Estava correndo, tinha uma entrevista de emprego e o horário estava bem apertado. Entrei em um estabelecimento pra imprimir um currículo e comprar um envelope. Fiz tudo com pressa.

Na hora de sair, agradeci e me despedi. O guri do caixa me disse:
– Tchau! Tenha um bom dia! E boa sorte!

Parei na hora na porta, olhei pra trás e sorri de volta. Jamais imaginei que ele tivesse percebido. Achei fantástico aquilo! É bom quando alguém que nem nos conhece presta atenção na gente e nos deseja coisas boas.

San e Os Pratos

Quem conta: camilacasemiro
Conta mais: gratidão é um momento simples que vira memória pra sempre.

Conheci a San num grupo do Facebook que me colocaram. Era fechado para mulheres, onde quem quisesse poderia oferecer serviços, produtos, artesanato etc. Vi um post de uma menina oferecendo faxina, porque precisava comprar um tênis esportivo para conseguir emagrecer.

Nessa mesma época, eu tinha feito uma limpeza nos armários e separado alguns sapatos para doar. Perguntei que número ela calçava e era o mesmo que o meu. Na hora, puxei a conversa para o chat privado e perguntei se ela tinha interesse nos meus sapatos – ela disse que sim. Não tinha tênis, mas tinham outras coisas e ele veio pessoalmente buscar.

Ela morava muito longe, então dei uma carona de volta. Falei que, quando eu precisasse de alguém para ajudar em casa, ligaria para ela. Ela é bem jovem e veio do Nordeste com o namorado e o filho. Eles moram nos fundos da casa da mãe dela e têm muito pouco.

O tempo passou e precisei de ajuda em casa, então ela foi fazer uma faxina e foi ótimo.

Ontem, comprei meu primeiro jogo de pratos. Eu sempre quis ter um jogo bonito e seguia com pratos herdados da casa da minha mãe. Eles têm aproximadamente 28 anos na nossa família e seguem em boas condições. Lembrei da San, porque estava cheia de roupas em casa para doar, e escrevi perguntando se ela aceitava.

Pedi um Uber e mandei tudo que tinha – inclusive, o jogo de pratos da família. Ao receber, ela mandou um recado emocionada dizendo que nunca teve pratos na vida e que ela e a família se alimentavam em potes de margarina.

Isso mexeu muito comigo e liguei na hora para a minha mãe para contar. Tem gente com tanto e gente com tão pouco. A gente que tem um pouco a mais, às vezes esquece o tanto que pode doar e ajudar. Terminei meu domingo muito grata pela faxina que fiz. Por essa reciclagem física e emocional. Na minha casa e na minha vida.

O mais valioso é saber que vou proporcionar novos momentos para essa família ao redor de uma mesa. Pois, agora, eles finalmente podem se alimentar em pratos.