Do Topo da Capela

Diálogos

Quem conta: rafaelmlatisoma
Conta mais: volte mais vezes aos lugares que te fizeram amar a vida.

Sou nascido em Santos-SP e criado em Brasília. Voltei pra minha cidade quando iniciei a faculdade de arquitetura, onde descobri um amor e interesse muito grande por sua história. Logo arrumei estágio na Cúria Diocesana de Santos – o setor de arquitetura era responsável pela manutenção de suas igrejas, entre elas algumas das mais importantes do país, incluindo a menina dos olhos: a Capela de Nossa Senhora do Monte Serrat. Ela tem mais de 400 anos e são mais de 400 degraus até chegar no topo do Monte.

Dei sorte de entrar no estágio na época de sua última reforma. Aquilo pra mim não era trabalho… suas paredes descascadas revelavam seu sistema construtivo de pedra e cal, onde se podia observar até conchinhas no meio da “argamassa” que unia as pedras. O telhado bem comprometido por ataques de cupim foi desmontado e retirado, enquanto o novo era fabricado ali mesmo pelo carpinteiro Elias, uma grande inspiração. Carregava peças de 300kg com sua equipe sem reclamar uma só vez. O céu estava sempre ali, bastava olhar pra cima. No mesmo lugar que Elias montava tudo.

A impressão era de que lá era o ponto mais alto do mundo, que realmente quase nada mais separava a conexão da terra com o céu, com Deus, com o divino… detalhe importante: não sou católico praticante, mas tenho fé.

Pois bem, um ano se passou e aqueles meus dias “visitando a obra” (lê-se: lá em cima, sentado no telhado, olhando a vista, pensando na vida, fazendo contato com a minha fé) chegaram ao fim, mas o sentimento por aquele lugar não! Desde então, subir o Monte Serrat aleatoriamente, sem programação, simplesmente sentir que preciso ir agradecer a vida – de escada, pois faz parte da gratidão -, se tornou um ritual, um reencontro, um momento de absurda paz.

Há um ano, estava em um misto de sentimentos. Muito feliz pelas mudanças da vida, pelo crescimento diário, pela aceitação de um hobby que virou job – o @nalousa – e, ao mesmo tempo, carregava um medo, uma angústia, uma culpa danada de umas mancadas que fiz comigo mesmo. Foi então que, num dia nublado e seco, cinza e quente, chego em Santos pensando na minha felicidade angustiada.

Tudo que eu pensava era “Vá lá em cima, tenha seu momento, sobe aquela escadaria descarregando tudo e agradece”. E eu subi correndo, pensando, agradecendo, mas, também, me martirizando. Reforçava para mim mesmo que lá é onde tenho paz. Eu podia contar os degraus e os metros finais, até que avistei a porta da Capela… cheguei! Comigo, chegou a chuva também.

Silêncio.

Pude confirmar neste dia a energia daquele lugar, da minha identificação com ele e da fé que preciso carregar todos os dias!

*O Rafa e a Dani são as pessoas maravilhosas por trás de um dos projetos que mais admiro. Vale a visita no: http://www.nalousa.com

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As Pessoas que Fazem Parte da Vida

Diálogos

Quem conta: viníciusgabriel
Conta mais: deixe as pessoas melhores do que as encontrou.

Atualmente, devido à certa situação, minha mãe não mantém mais contato comigo. Às vezes, isso me dói e me traz certa revolta.

Me lembro, no entanto, que há alguns anos ela tirou um dia de folga e levou eu e meu irmão para uma visitar algumas pessoas idosas que conhecíamos, mas que não víamos mais.

Apesar de na época eu achar aquilo um tanto tedioso, algumas de suas palavras me marcaram de um jeito que nem eu poderia imaginar: ela nos incentivou a valorizar as pessoas que fizeram parte de nossa vida e foram afastadas pelo tempo.

Um dia desses, vi passar na rua uma senhora que há muitos anos foi nossa vizinha. Chamei seu nome, falei quem eu era e ela se lembrou de mim. Conversamos bastante, nos despedimos e saí feliz e grato. Feliz por ter a oportunidade de mostrar àquela senhora que eu me lembro dela com carinho. Grato à minha mãe por ter me ensinado isso, mesmo que talvez nem saiba.

Espero poder dizer isso pra ela em breve. ♡

Dona Conceição

Diálogos

Quem conta: tainahcosta
Conta mais: nem tudo precisa ser dito, basta um sorriso.

Há uns anos fui atrás de fazer algo para uma comunidade quase desconhecida, mas muito necessitada. Pedi ao meu irmão que me levasse a um bairro muito pobre, em que o colega de trabalho dele morava. O local tinha sido um antigo lixão, mas nos tempos atuais abriga(va) diversas cooperativas de lixo recicláveis – que não deixa de ser lixo, que não deixa de trazer algumas coisas ruins, como sujeira, odores, urubus.

Fui fotografar o local para um concurso que premiaria a comunidade retratada e não o fotógrafo e, tratando-se de um concurso de uma comitiva inglesa, tinha certeza que aquela realidade os tocaria de forma única. Foram dois dias de fotografia, com direito ao meu irmão tomar enquadro da polícia dentro da favela e revistarem minha mochila. A realidade bateu na nossa cara.

As casas eram construídas em cima de restos de tudo. Os caminhos eram formados por montes de azulejos quebrados, por cima de blocos de terra que pareciam poder afundar a qualquer momento, já que o bairro é permeado por algum rio muito poluído (e com cheiro de botar inveja ao Tietê).

No segundo dia de visita, logo depois do enquadro e do sentimento de frustração de ser suspeito só por estar em uma favela, encontro uma senhora sorridente, que cuidava de duas crianças. Aquela era dona Conceição, que mora em uma casa de um cômodo, que era sala-quarto e cozinha. Não consegui entender metade das palavras dela em nosso primeiro encontro, sua voz calma e baixa, acompanhada de um sotaque carregado, não foram suficientes para quebrar a minha timidez e pedir que repetisse. Mas foram suficientes para eu fazer algo que nunca consigo: pedir um retrato.

Aí, veio a surpresa: ela não sabia o que era fotografia, ou pelo menos não entendia como funciona aquele troço que eu carregava no pescoço. Expliquei, ela riu por não acreditar que era possível, mostrei a foto da casa dela, das crianças, dos vários cachorros dela, mas o pedido do retrato foi negado. Não insisti e continuamos a conversa por breves minutos, quando me despedi e segui meu caminho.

A comitiva inglesa nao se compadeceu tanto e a comunidade não foi contemplada daquela vez.

Três anos depois, uma pessoa que trabalha numa ONG local me convidou para participar de uma ação em Sambaiatuba. Já me sentindo em casa, aceitei o convite na hora e retornei às vielas. No primeiro barraco que paramos, reencontro dona Conceição, sentada na porta, na mesma posição que encontrei-a 3 anos atras. Sorri por dentro.

Os outros a convidavam para subir e participar da ação social. Eu empunhei a câmera, mas não conseguia fotografar, ainda precisava da permissão dela.

Foi quando ela me olhou e arrumou o cabelo. Entendi que aquilo era um sim e cliquei. Ela riu da mesma forma de 3 anos atrás, quando expliquei o que era fotografia. Mostrei como ela estava bonita e ganhei mais um sorriso, ela estava feliz que o gato saíra na foto também.

No meio de tanto lixo, tanta falta de cuidado, tanta coisa negativa, bastou um sorriso para alguém me mostrar que, mesmo em meio a tanta coisa difícil, a alegria pode estar presente. Sempre.

*A Tainah tem um projeto lindo, não deixe de visitar o Elementar Cotidiano. <3

Do Computador ao Telefone

Diálogos

Quem conta: julianacasemiro
Conta mais: sobre sorrir.

Trabalhamos juntos há tempos, mas nos vimos só duas vezes. O contato virtual sempre foi ótimo, mas naquele dia ele decidiu ligar. Era o início do meu processo de despedida.

Me disse que estava triste, “como se uma irmã estivesse indo embora” e gastou 31 minutos do seu dia para me elevar, algo que não sei se vivi antes, mesmo com tantas pessoas temporárias maravilhosas que já passaram pelo meu caminho.

No final, deixou um conselho que vou carregar sempre:
– Nunca deixe de sorrir. Sorriso no inverno vira primavera.

Me faltaram palavras, mas agradeci tudo e muito. Desliguei aos prantos, com muita gratidão à vida por ter nos conectado além da tela do computador.

As Senhoras Sírias

Diálogos

Quem conta: loutrajano
Conta mais: quando uma porta se fecha, um universo inteiro se abre.

Conheci duas senhoras da Síria a caminho do trabalho. Estava correndo pra fazer a baldeação na Estação da Sé e tomei um baita susto quando alguém agarrou o meu braço com força. Estou sempre com pressa, mal reparo no que está acontecendo ao redor.

A senhora perguntou se eu poderia ajudar ela e a amiga, porque nenhuma falava português direito. O destino final era a Bresser-Mooca. Tentei explicar o percurso até o outro lado da estação, onde sai o trem, mas no fim das contas as acompanhei até lá.

Perguntei de onde eram, ao que a de hijab preto respondeu “Síria”, “guerra” e “triste”, em português mesmo. Ela era professora de música lá e perdeu tudo. Acharam melhor fugir pra cá. Pelo que entendi, iam até próximo do Brás procurar emprego. Disse que sentia muito, que o Brasil ultimamente não estava nos seus melhores tempos, mas que esperava mesmo que elas encontrassem paz aqui, de alguma forma.

Nos despedimos porque o trem já estava na plataforma. Ganhei beijinhos nas suas bochechas, abraços calorosos meio desajeitados e uma palavra na língua nativa delas que não entendi direito, mas que sorri com retribuição.

Eu, que tanto amo fotografar tudo, fiquei com vergonha de pedir uma foto delas. Não perguntei nome, nem peguei telefone. Estou arrependida até agora. Um nó enorme no peito porque o mundo todo está doente. Hoje, eu só desejo força pras tantas pessoas que perderam tudo e que precisam largar toda uma vida pra trás pra sobreviver, sobretudo essas mulheres guerreiras que tanto sofrem.

Torcendo pras minhas duas amigas ficarem bem e aprenderem outras palavras felizes do português, além de “guerra” e “triste”.