San e Os Pratos

Quem conta: camilacasemiro
Conta mais: gratidão é um momento simples que vira memória pra sempre.

Conheci a San num grupo do Facebook que me colocaram. Era fechado para mulheres, onde quem quisesse poderia oferecer serviços, produtos, artesanato etc. Vi um post de uma menina oferecendo faxina, porque precisava comprar um tênis esportivo para conseguir emagrecer.

Nessa mesma época, eu tinha feito uma limpeza nos armários e separado alguns sapatos para doar. Perguntei que número ela calçava e era o mesmo que o meu. Na hora, puxei a conversa para o chat privado e perguntei se ela tinha interesse nos meus sapatos – ela disse que sim. Não tinha tênis, mas tinham outras coisas e ele veio pessoalmente buscar.

Ela morava muito longe, então dei uma carona de volta. Falei que, quando eu precisasse de alguém para ajudar em casa, ligaria para ela. Ela é bem jovem e veio do Nordeste com o namorado e o filho. Eles moram nos fundos da casa da mãe dela e têm muito pouco.

O tempo passou e precisei de ajuda em casa, então ela foi fazer uma faxina e foi ótimo.

Ontem, comprei meu primeiro jogo de pratos. Eu sempre quis ter um jogo bonito e seguia com pratos herdados da casa da minha mãe. Eles têm aproximadamente 28 anos na nossa família e seguem em boas condições. Lembrei da San, porque estava cheia de roupas em casa para doar, e escrevi perguntando se ela aceitava.

Pedi um Uber e mandei tudo que tinha – inclusive, o jogo de pratos da família. Ao receber, ela mandou um recado emocionada dizendo que nunca teve pratos na vida e que ela e a família se alimentavam em potes de margarina.

Isso mexeu muito comigo e liguei na hora para a minha mãe para contar. Tem gente com tanto e gente com tão pouco. A gente que tem um pouco a mais, às vezes esquece o tanto que pode doar e ajudar. Terminei meu domingo muito grata pela faxina que fiz. Por essa reciclagem física e emocional. Na minha casa e na minha vida.

O mais valioso é saber que vou proporcionar novos momentos para essa família ao redor de uma mesa. Pois, agora, eles finalmente podem se alimentar em pratos.

No Ponto de Ônibus

Quem conta: tamaradesá
Conta mais: daqueles encontros que fazem refletir uma vida toda.

Depois de quase morrer do coração com um cachorro atropelado, eu preciso contar sobre uma pessoa de luz que conheci anteriormente. Estava no ponto de ônibus próximo à UFSB, como faço todo santo dia após o estágio. Chegou um senhor, encostou sua bicicleta com algumas sacolas no guidão e pediu licença para sentar no mesmo banco que eu, pois precisava descansar.

Ele começou a contar que estava levando comida para um garoto em Ferradas que ele adotou como afilhado. Disse que havia ligado pela manhã e perguntado se ele tinha tomado café. A resposta foi “não”. Perguntou se tinha jantado no dia anterior, a resposta foi “não”. Então, ele juntou o que podia, comprou algumas coisas e estava levando para a criança se alimentar.

Junto com o menino, mora sua mãe desempregada, seu pai que faz bicos (e ainda não tinha recebido nada esse mês) e outras 5 crianças, entre primos e irmãos. O senhor ajuda também outra família de situação similar. Ajuda uma cumadi inválida. E cria um garoto de 13 anos de idade.

Tudo isso ele faz com o que ganha por ser aposentado. Sendo que há dois anos ele sofreu um câncer e, desde então, não consegue mais arrumar emprego. Ele ainda disse que o que mais dói o coração dele é ver alguém passando fome. E que dessa vida a gente não leva nada, por isso tem que ajudar quem precisa. Depois se despediu:
– É, minha fia, agora que descansei, vou seguir meu caminho.

Só consegui me despedir falando de todo coração:
– Vai com Deus, Deus abençoe o senhor.

Nem me lembrei de perguntar o nome dele, mas agradeço a Deus por esse encontro. E queria compartilhar com quem quisesse ler. Pra quê tudo isso? A conclusão fica por conta própria, porque eu já escrevi demais.

O Senhor e o Buraco

Quem conta: liviacampelo
Conta mais: tem gente que enche o coração da gente.

Era mais ou menos 10 horas da manhã quando eu estava indo para casa e caí com o carro em um buraco. Tentei dar a ré e nada. Desci do carro já com o celular na mão, não havia muito o que fazer. O lugar era deserto, sem muitas casas, não sabia quantas horas iria esperar até aparecer alguém.

Quando vejo, há um senhor lá longe, bem longe, vindo na minha direção. Não precisei falar nada. Ele se aproximou e disse:
– Temos que levantar o carro.

Um motociclista surge e o senhor pede para parar e ajudar a levantar o carro. O motociclista diz que é impossível e o senhor, muito solícito, insiste. Eu disse para esperarmos mais alguém. Todo mundo passava, mas ninguém parava, a não ser que ele pedisse.

Já eram 4 homens e no buraco tinha muita água. Ouvi até algum deles falando que não ajudariam porque iam se sujar, mas aquele senhor sempre insistente fez todos eles levantarem o carro. Foram segundos e, enfim, eu já podia ir pra casa.

Agradeci, mas esqueci de perguntar o nome dele. Fui pra casa o caminho inteiro pensando em voltar, sentindo uma imensa vontade de dar um abraço naquele senhor. Ele salvou o meu dia e nem sabe que agora estou escrevendo pra falar de como ele deixou meu coração cheio de gratidão logo cedo.

A Senhora que Varria Folhas

Quem conta: thaleslima
Conta mais: sobre ser e ver como humanos.

Fui acordado pelo motorista, era aproximadamente 07:00 da manhã de um domingo. No dia anterior, tinha ido em uma festa na cidade vizinha, de van. Estava empolgado pelo começo das férias, bebi mais do que podia/aguentava e desmaiei assim que deitei no banco para voltar para casa, às 05h30 da manhã, aproximadamente.

Acordei apenas com os empurrões no ombro e os avisos de que era o ponto final, em um estacionamento deserto, no meio do nada. Um pouco bêbado ainda, comecei a andar pelo bairro procurando o caminho de casa. Percebi – depois de muito andar – que estava em um bairro extremamente distante do meu e que nunca chegaria em casa andando (não nas condições que eu estava).

Procurei então a casa de uma amiga que morava por ali mesmo. Andei por dezenas de minutos e não achei nada. O dia se formava, as pessoas começavam a transitar pela rua, olhares tortos e risos me atravessavam, e eu comecei a ficar apavorado. Olhei no bolso e não tinha dinheiro para o ônibus. Olhei o celular e ele estava descarregado. Olhei pra mim e vi que estava ferrado, que minha mãe certamente estaria em casa preocupada.

Deixei o orgulho de lado e comecei a pedir dinheiro para o ônibus, porém sem sucesso. As pessoas olhavam para minha roupa (eu estava de vestido, colar, calça e bota) nada masculina – de acordo com os padrões – e me desprezavam. Me senti mal por isso, mas na realidade, acostumado. Já não bastasse a ressaca, o cansaço, a falta de dinheiro etc, eu ainda precisava lidar com o preconceito de todo dia. Mas, voltando ao foco: dentre as inúmeras pessoas que me viraram a cara, parei uma senhorinha que varria a calçada e contei minha situação. Perguntei se ela poderia me dar um copo d’água para continuar a caminhada, pois ainda faltava MUITO.

Ela perguntou onde eu moro, como me chamo, como chama minha mãe e meu pai (típico de cidade pequena), mas não me reconheceu. Então, mandou eu esperar ali e foi dentro de sua casa, pegou uns trocados e me deu para pagar o ônibus. Contei o dinheiro e percebi que era mais do que precisava, então fui entregar-lhe o resto. Para minha surpresa, a resposta dela foi:
– Você precisa mais que eu! Passa naquela padaria ali, é ótima. Toma um café e volta pra sua mãe, ela deve estar desesperada.

Eu agradeci, dei um abraço, um bom dia e fui para casa. Minha mãe estava na porta me esperando, realmente preocupada e quase chamando um resgate (mentira, não chegou a tanto).

Queria deixar – e acho que minha mãe também – meu agradecimento à esta mulher gentil que, diferente das dezenas de pessoas que me desprezaram, teve esse olhar humano para comigo. O mundo precisa de mais pessoas assim.

Pretendo voltar e ajudar a varrer as folhas, tomar um café e dar um bom dia com um hálito melhor. Gratidão!

Desde o Ensino Médio

Quem conta: anônima
Conta mais: sobre escrever a própria história.

Nos conhecemos em 2004, no ensino médio. Nos gostávamos, mas nenhum nunca assumiu para o outro. Comecei a namorar outro rapaz, terminei, depois ele que começou a namorar. Foi um baque pra mim.

Ele se afastou, porque a namorada dele sabia que ele gostava de mim e “proibiu” a amizade. Depois, também comecei a namorar outro rapaz. Nos falávamos raramente. Ele sempre esteve nos meus pensamentos, e eu nos dele.

Anos depois, em 2014, estávamos os dois sozinhos. Nos reaproximamos e, numa feliz formatura de uma amiga em comum, demos nosso primeiro, esperado e maravilhoso beijo.

À partir daí, enfrentamos muitas coisas, muitas críticas, muita negatividade, mas também ríamos, brincávamos, conhecíamos lugares, compartilhávamos tudo. Enfim, nos amávamos na prática. Meu Deus, como ele me fazia feliz!

Também éramos bem diferentes, brigávamos, mas sempre continuávamos mais fortes. Até que ele começou a querer terminar. Dentro de 8 meses de namoro, ele terminou 6 vezes comigo. Sempre voltava e eu sempre aceitava. Na última vez, em dezembro, ele prometeu que não o faria mais.

Minha depressão e ansiedade me pregaram mais uma peça na vida. O perdi. Ele cansou de tentar. Foi embora.

Nunca alguém me enxergou como ele. Nunca alguém me apoiou como ele. Nunca alguém foi tão fundo em mim como ele. Ele sempre esteve no topo para mim, onde ninguém nunca alcançou.

Depois de ter vivido essa história, e de tudo que fez por mim, aí é que ninguém vai alcançá-lo. Fica aqui minha gratidão ao único homem que me viu como sou, e que, até cansar, lutou por mim.

São 13 anos de histórias… “teremos coisas bonitas pra contar”.